Encontros

De desencontros, melhor não falar.
Encontros casuais, bem encaminhados, felizes, de entendimento e sintonia, gerando com o tempo amizade
e com sorte até alguns amores que vão se graduando entre passageiros, duradouros, superficiais, profundos,
querências, encantos e desencantos, enfim o curso cambiante da vida onde quer que o vento nos leve, o destino,
a estrela, os caminhos que se bifurcam, isso aí e tudo o mais.

Antes de encher páginas e páginas com nomes e circunstâncias dos muitos encontros que tive e continuo tendo,
prefiro restringir-me a alguns.

Entrevista… quase casual!

burgweg hd schloss immanuel gielFoi assim.
Primavera no hemisfério norte. Com inusitada generosidade dignava-se o sol. Pouquinha coisa, não estamos nos trópicos.

À-toa na vida por ser dia de folga, cogitei comigo mesmo ali no pedaço… com esse solzinho preguiçoso, que não se decide
a sair de todo para facilitar-nos a decisão vital de como aproveitar melhor o dia, vou subir ao Jardim do Castelo [a famosa
ruína do sec. XVII, principal atração turística da cidade] e lá saborear uma loirinha bem gelada. “Schlossquell!”
Quem sabe me inspiro e rabisco umas frases que poderiam levar a outras e daí…

Pela rua principal de Heidelberg (Hauptstrasse), onde agora já se acumulavam tantos passos, alguns bons aninhos, vividos, lembrados, agradecidos, de muita surpresa e conhecências, ia caminhando tranquilamente, absorto em pensamentos mira-
bolantes, rumo à conhecida vereda que conduz ao Castelo e que me encanta subir caminhando, ali logo atrás da estação do funicular, quando… ah!… de repente, não mais que de repente (diria o Vinicius),

bunsenhauptstrasse

justo diante do empertigado, sisudo Dr. Bunsen, com seu pesado traje
de bronze coberto de pátina, corta-me os passos, entre amável e atre-
vida, toda sorriso, uma loira esfusiante, cabelos rebeldes última moda, minissaia de jeans e uma flamante camiseta laranja com florões prateados e motivos góticos, bolsa de napa e plástico a tiracolo, caderno de notas na mão…
para diante mim e se desculpa, o senhor não me conhece, mas eu sim sei quem é e se me permite gostaria de fazer-lhe algumas perguntas para a nossa classe de tradução simultânea, coisa de dez minutos ou pouco mais. Pode ser?

Olhei pra loira, olhei pro relógio, hesitei dois segundos e disse que sim, como não. Impossível recusar um pedido feito com tanto charme. Ademais – a vaidade picada. Ser [re]conhecido por alguém que você não conhece, e em tais cir-
cunstâncias, a atração de uns olhos claros e linhas quase perfeitas do rosto, isso sim, salpicado de pequenas sardas, para culminar nas mãos quase mais suaves que uma melodia de Schubert ou Debussy… Impensável dizer não.
Aproveitando a cafeteria do terraço, pedi dois cafés com sorvete (Eiskaffee) e fiz sinal de estar preparado, se é que
um simples mortal vindo dos trópicos pode estar preparado para enfrentar-se a uma loira germânica, sem perder a estribeira e um mínimo de controle, principalmente ao ter que responder a sabe-deus que perguntas.