Nosso objetivo primordial era, por motivos óbvios ligados ao nosso gosto pessoal e a anteriores experiências com a calorosa recepção por parte do público e da crítica, mormente na Alemanha, explorar o riquíssimo campo da música brasileira, se possível com um enfoque jazzístico, moderno, distinto do âmbito clássico a que estávamos habituados.
Já nos primeiros contatos em busca de repertório adequado fomos descartando de comum acordo, e por evidentes razões musicais, ligadas à interpretação e à enorme proliferação de trabalhos existentes nesse âmbito, a ideia de entrar no campo da bossa-nova e adjacências.
Na Alemanha já tínhamos participado (Carmen Durán e eu) de numerosos concertos e recitais clássicos incluindo a Villa-Lobos, Lorenzo Fernández, Mignone, Camargo Guarnieri, Osvaldo Lacerda, Valdemar Henrique, Cláudio Santoro, e por acréscimo a Luís Bonfá, Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho e outros monstros sagrados dessa genial espécie.
Ao ensaiar, entre outras obras escolhidas, a Ária das Bachianas Brasileiras Nº 5, que Carmen Durán já havia cantado em várias ocasiões,
primeiro no Festival Internacional de Primavera (Musikfestival Heidelberger Frühling, Alemanha), com acompanhamento de orquestra
(8 Cellos da Philharmonisches Orchester Heidelberg), repetida em muitas outras oportunidades, e em recitais com acompanhamento
de piano e violão, de imediato notamos que a solução era concentrar-nos na obra de Villa-Lobos e montar um programa completo,
como um desafio artístico de tributo a essa figura sem par da música brasileira e universal.
De obra em obra e de experimento em experimento acabamos fixando um programa com 6 originais de VL, magistralmente arranjados
por Alberto Conde, juntando-lhes 3 peças de sua autoria, com os textos que em seguida se mencionam, por mim concebidos também
de forma especial e exclusiva para este projeto.
Por último não seria de todo supérfluo observar que o próprio método de composição de Villa-Lobos e seu personalíssimo conceito criador parecem convidar-nos a buscar toda sorte de possibilidades que suas geniais invenções e proposições harmônicas nos proporcionam com o objetivo de revitalizar sua obra, ou no mínimo certas facetas da mesma, atendo-nos a nossas condições técnicas
e interpretativas, ou seja, fora do âmbito clássico, convencionalmente denominado erudito, de um conjunto de instrumentos como um quarteto de cordas, os 8 violoncelos das Bachianas nº 5 ou uma orquestra sinfônica e coro mixto dos Choros nº 10, mas com a clara intenção de uma proposta seguramente válida de aproximação artística a que Villa-Lobos (quem —em vida— e mesmo depois tão pouco reconhecimento público/oficial obteve no Brasil), em seu incansável entusiasmo e prodigiosa abertura de mente, com toda certeza não só daria sua bênção mas também seus mais calorosos aplausos.
Assim o entendemos e pretendemos. Assim o esperamos. Respeitosamente inclinados ante o gênio, brasileiro e universal. E corajosamente ante o público interessado.
[Copyright © by jrBustamante, 2012]
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